domingo, 16 de agosto de 2009

A escolha da dor


Algumas vezes os ditados populares são muito apropriados, e resumem pensamentos, circunstâncias de vida, coisas que se deve ou não fazer. Alguns são muito engraçados, alguns nem tanto, e quero me utilizar de um deles: “pelo amor ou pela dor”, diz esse que implica que as pessoas aprendem as lições da vida seja por um ou outro caminho, e que há circunstâncias nas quais esse aprendizado é inevitável, de um modo ou de outro.

Mas aprendizado não significa sempre solução de algum problema, pois há situações nas quais a pessoa sabe o que lhe aflige, conhece a sua dor, sabe ou tem digamos, uma semi-consciência do seu problema e o nega, ou reage com raiva, que pode ser causada por uma sensação de impotência diante do problema, impotência esta real ou imaginária.

Mas há casos em que as pessoas sabem de tudo isto e procuram não mudar nada resistindo a toda possibilidade ou tentativa por outras pessoas de interferir na situação e provocar a mudança.

É a escolha dos remedios e da dor da fibromialgia ao invés de fazer análise, é a pessoa que vai para uma entrevista ou primeira sessão, fala abertamente sobre o que sente, sabe que há uma saída para seus problemas e resolve não prosseguir, há o viciado em cigarro que sabe do mal que faz a si mesmo e não para e por ai vai.

Quer dizer que as pessoas escolhem a dor? Exatamente. Escolhem a dor porque embora não pareça, há um ganho nisso, ganho secundário como se diz em Psicanálise.

Ganho secundário é uma vantagem que vem da neurose, como uma solução menos conflituosa comparada à luta entre as defesas impostas pelo superego e em menor grau pelo ego e os desejos de origem inconsciente. O proprio Freud considerava essa situação como uma grande dificuldade ao processo analítico, o que é facilmente observável: basta perguntar a qualquer pessoa se ela faria análise, mesmo aqueles que claramente sofrem, e que sabem que sofrem e muito rapidamente dirão que não precisam, que isto é coisa para loucos e outras formas de resistência. Aliás, resistências há muitas, e oportunamente as discutiremos.

Menos conflituoso não significa nem de longe ausência de dor ou sofrimento para a pessoa, e pode ser a causa de empedimentos e restrições em sua vida, diminuindo o prazer de viver, a espontaneidade, a qualidade de vida, e possivelmente dando lucro aos fabricantes de remédios, estes companheiros inseparáveis e substitutos orais de soluções que requerem mais trabalho, são muito mais profundas e significativas e muito mais complexas do que engolir uma pilulazinha colorida e fingir que está tudo bem.

Mas não podemos obrigar alguem a deixar a dor, podemos apenas sugerir, ajudar se a pessoa quiser deixar este lugar de sofrimento.

Convido novamente você à reflexão, que é um dos objetivos deste blog: o que prefere? O que faz em suas escolhas, “dor ou amor”?



domingo, 2 de agosto de 2009

A cor da mentira


Não faz muito tempo a grande mídia percebeu que falar sobre ecologia e meio ambiente, vende.

Percebendo isto tomou posse, digamos, de conceitos e idéias e as transformou em algo que pode ser empurrado ao público para dar uma aparência de que esta ou aquela companhia ou empresa está sinceramente preocupada com o mundo em que vivemos, incluindo ai seus “colaboradores” - jargão do mundo empresarial para falar sobre funcionários, empregados e similares, quer dizer, aqueles que são despedidos assim que alguma coisa ameaça os investidores, ou usados pelos sindicatos para extrair algum dinheiro de quem quer que seja – e seus clientes.

Basta olhar os jornais, revistas – alguem já contou o número de anúncios de montadoreas na Veja? - e estes estão recheados de palavras como “ecologico”, “natural”, “verde” “natureza”, “bio”, e muitas vezes decoradas com flores, folhas, animais e outros motivos. Os exemplos são muitos: Ecosport, um carro cujo nome poderia ser usado até num desodorante, Economat, marca de cambio automático de veiculos pesados, “agua mineral natural” - alguem já viu agua mineral artificial? - e outras pérolas de nossos criativos, sinceros absolutamente éticos publicitários, Duda Mendonça que o diga.

A publicidade que conhecemos hoje, incluindo ai a publicidade oficial das empresas, chamada de Relações Públicas, foi criada por Edward Bernays, por ironia do destino sobrinho de Sigmund Freud. Bernays utilizou-se das obras de Freud para poder manipular o inconsciente público, mais ou menos o que as igrejas já fazem há muito tempo, mas com o propósito de vender bens materiais e não salvação eterna ou favores divinos. Tudo isto brilhantemente explicado no documentário The century of the self, feito pela BBC e que pode ser visto no Youtube, mas em inglês e sem legendas, que eu saiba.

O que estes anúncios tem em comum alem da manipulação pura e simples é sua falta de conexão com a realidade do dia a dia. Qualquer empresa que publica um anúncio destes o faz como se não houvesse qualquer relação entre o que é mostrado e o dia a dia dos comuns dos mortais. A mesma atitude é passada pela perniciosa televisão, que trata do aquecimento global e o cuidado com o ambiente como se isto estivesse acontecendo em Marte e não aqui, no nosso dia a dia, e como se isto fosse sempre o problema e a responsabilidade de alguem que não eu, que estou aqui vendo esta novela tão boa, este BBB cheio de vulgaridade, este gordo que fala sem parar e nenhum, nenhum deles me deixa ou faz pensar em nada, a não ser compre isto ou aquilo.

A ficção científica sempre imaginou robôs ou máquinas complexas dominando o mundo; já há uma maquina que domina o mundo, está dentro da sua casa e ninguem notou.

Há vários mecanismos de defesa do ego que são usados para mediar o mundo exterior e o nosso mundo interior, este é um dos papéis do ego, e sem estes mecanismos não conseguiríamos viver.

O problema é quando estes mecanismos nos afastam da realidade e de um modo que nos atrapalha, incomoda, faz sofrer, e pode ir de uma negação à uma esquizofrenia, delirios e estados mentais perturbadores.

A midia, através dos métodos de Baneys se utiliza destes mecanismos.

Negação em atos e palavras, negação na fantasia, limitação do ego, todos mecanismos de defesa contra perigos extra psiquicos que podemos utilizar em nosso contato com a relidade, e estes são muito bem explorados por quem quer que deseje manipular um grupo.

No nosso caso, isto nos afasta da nossa real necessidade de fazer algo no dia a dia, em pequenos gestos, em atitudes que significam muito se colocadas numa perspectiva mais ampla, mas também teríamos de mexer com nosso egoismo, nosso narcisismo, do qual falarei oportunamente.

Quem estaria disposto a deixar o carro em casa, sempre que possível, e utiliza-lo apenas em último caso?

Ou tocar em outro de nossos hábitos mais sagrados e ferrenhamente defendidos, o consumo de carne? Ou ser corajoso a ponto de falar abertamente que nossa superpopulação é uma catástrofe esperando para acontecer, e que não haverá comida, abrigo, água e espaço para mais gente, portanto eu não vou ter filhos?

A relidade não se adequa aos sonhos e desejos humanos, e as vezes, descobrir isto pode ser tarde demais.







sábado, 18 de julho de 2009

Sociedade ansiosa

Quem usa Metro aqui em São Paulo deve ter notado, já há algum tempo, a presença de telas nos vagões. A alegação oficial era fornecer informações aos passageiros, como se não tivéssemos já o suficiente, mas o resultado na prática foi, nas poucas vezes que dei uma olhada, mostrar frases bonitinhas de pessoas como Albert Einsten ou Chico Xavier. Não sei quem faz a programação, mas deve ser alguem que nunca leu a biografia de nenhum dos dois, ou alguem que acha que física é coisa de outro mundo para misturar coisas tão díspares, antagônicas eu diria, num mesmo local.

Por que não citam também Feynman ou Dawkins, se querem citar cientistas? Por que teria que se ter muita coragem, e vivemos num pais de medrosos.

Mas o que desejo ressaltar aqui é a presença das telas, não do seu conteúdo, isto daria uma outra boa e longa postagem.

Dificilmente se vai à algum lugar sem que haja uma TV, um som ambiente ou música que brota de algum lugar invisível? Lojas de roupas tocam coisas incompreensíveis, “musica” saida, esta sim, de um outro mundo, talvez o intúito seja deixar-nos atordoados, fazendo-nos comprar tudo e rapidamente irmos embora, restaurantes nos brindam com uma variedade imensa de musicas, seja ao vivo, de qualidade quase sempre muito ruim, seja gravada, esta conseguindo ser ainda pior na maioria dos casos, somando-se ao ruido natural que no caso das churrascarias me faz temer que os convivas e os garçons possam surtar e sairem esfaquendo uns aos outros, confundindo-se e finalmente igualando-se aos outros animais já mortos sobre as mesas e nos espetos.

Os trólebus que circulam no corredor ABD tem musica, há um parque na provínciana São Bernardo do Campo cuja intenção é nos deixar em contato com plantas e natureza, que tambem faz brotar musica do meio da mísera área verde mostrada ali. Parque com som ambiente! Carros com vidros escuros passam com música no ultimo volume, se bem mais parecem sons destinados a enlouquecer e a ensurdecer quem estiver por perto. E ao longe também. Domingo oito horas da manhã passa o caminhão vendendo gás, que já passou a semana inteira, com uma musiquinha que se finge de inocente, finge que não incomoda, mas o faz. E depois passa o caminhão da concorrente. Os exemplos estão em toda parte. Vivemos no mundo dos exageros.

E o que há por trás disso?

Há uma sociedade extremamente ansiosa, feita obviamente de pessoas extremamente ansiosas.

Atrás desta ansiedade está a falta da capacidade de subjetivação.

O conceito de subjetividade é amplo, e embarca filosofia e sociologia, e subjetividade é o caráter do que é subjetivo, que, por sua vez, diz respeito ao sujeito definido como ser pensante, como consciência, por oposição a objetivo. De fato, a subjetividade engloba todas as peculiaridades imanentes à condição de ser sujeito, envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais de uma determinada pessoa.

Algo que nos falta muito na sociedade de hoje. A capacidade de pensar antes de agir, a capacidade de pensar nossos sentimentos, e não apenas comprarmos e consumirmos para aplacar ou satisfazer algo que não sabemos nem queremos saber o que é.

A musica espalhada em todos os lugares, o ruido constante, o volume alto da TV, a programação de TV sem nexo nem significado profundo, redundante, que temporariamente finge tapar um vazio que se reafirma assim que este acaba, os jornais sensacionalistas, a comida abundante, cheia de sal e gordura, a bebida fácil na mão de adolescentes, a droga em todos os lados, tudo está sempre à mão para impedir que fiquemos com nós mesmos, que sintamos o que vai dentro de nós, que possamos nos entender, sentir, perceber, que nos transformemos em seres pensantes e com capacidade de sentir e entender o que se sente.

Nossa sociedade teme e evita o silêncio, e a introjeção, o mergulho em sí que este pode trazer, as transformações que pode provocar.

Só no silêncio se consegue reflexão, e só a reflexão pode trazer a mudança, a paz em todos os níveis.

Quanto tempo você consegue ficar em silêncio? Que sensações te desperta? O que te vem à mente?

Experimente e me conte.



RESENDE, Anita C. Azevedo ; “Subjetividade e cultura: a contribuição da psicanálise ao debate”, UFG/UCG, HYPERLINK "mailto:anita.resende@pesquisador.cnpq.br"anita.resende@pesquisador.cnpq.br

GT: Psicologia da Educação / n.20



Birman, Joel; Arquivos do mal estar e da resistência, Civilização Brasileira, 2006.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

Caráter e análise

Há muitas definições possíveis para um ser humano, nem todas boas.

Mas o que é um ser humano? O que é uma pessoa, alguem, você, eu? A esta altura, já devem ter pipocado milhões de possíveis definições em sua cabeça, dizendo “eu sou isto e não aquilo”. Gostamos de nos dar sempre uma boa imagem, somos o centro do universo, o ponto mais alto da “criação”, os outros são “animais”, com pouca inteligência, falo aqui dos gatos, cachorros, cavalos, etc. Convenientemente nos esquecemos que somos animais tambem, ou existem humanos “vegetais”?

Será que é esta uma das razões pelas quais comemos os outros animais, sem a menor culpa? Será que é por que comenos os grandes, como bois e vacas, aos pedaços, devorando os pequenos inteiros?

Uma das formas de nos vermos, é através do nosso caráter. E o que é isto?

Partindo do inicio, temperamento refere-se ao modo de reação, e é constitucional e imodificável.

O caráter forma-se pelas experiências da pessoa, e em especial pela sua infância, é modificável até certo ponto, pelas experiências.

A personalidade é a soma de qualidades psíquicas herdadas (temperamento) e adquiridas (caráter).

Já ouvi pessoas dizerem que fulano ou sicrano tem “personalidade forte”, talvez querendo dizer que alguem é impositivo, agitado ou qualquer coisa assim. “Personalidade forte” não existe, e é preciso ver o que está se querendo dizer, por trás do discurso muitas vezes ingênuo ou ignorante de quem fala.

O que se modifica na análise é o individuo como um todo, e para tal leva-se tempo, dedicação, trabalho sério e árduo, nem sempre agradável, mas certamente vale a pena.

Só que para isto é necessário uma boa dose de coragem, de nos enxergarmos como somos e não como gostaríamos que fôssemos ou imaginamos que somos, é preciso descer do pedestal, nos olharmos com honestidade, e partirmos para uma viagem de mudanças grandes e profundas.

Uma das coisas que ser humano nenhum consegue é não se comportar. Nesse seu comportamento está expresso sua personalidade, caráter e temperamento, quem ele é e na maioria das vezes nem sabe.

Pode ser melhorado, e muito, se ele quiser e conseguir.

Lembre-se: Só os normais fazem análise.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Pensar ou sentir?

Quem tem por volta de quarenta anos deve se lembrar que os anos oitenta foram muito criativos em matéria de música. Havia para todos os gostos e estilos quantidade suficiente para se divertir, gostar e não gostar. Entre muitos, havia o The Smiths, a Blitz, Paralamas, U2 e muitos, muitos outros, cada um com uma mensagem, um jeito, uma proposta.

Johnny Marr era o guitarrista do The Smiths, e provocou muito comentário na época pelo seu estilo de tocar. Marr sempre utilizava o tom de Fá sustenido para poder acomodar a extensão vocal do Morrissey, que era o cantor da banda, e seu estilo de tocar era um pós punk, com uma fusão do rock dos anos sessenta, um “non-rhythm-and-blues.”

Mas quem se lembra disto? Da afinação da guitarra, do ritmo do baixo, do estilo da bateria?

Destes detalhes técnicos, muito pouca gente. Nos lembramos muito mais facilmente das emoções provocadas pelas músicas, das lendas em torno de "Heaven knows I am miserable now", música que se dizia teria evitado o suicídio de muita gente, ao menos no mundo anglo saxão, nos lembramos das roupas, das garotas da faculdade, dos amigos da época, das alegrias e tristezas da juventude.

Normalmente enxergamos o mundo pelo prisma da emoção e dos sentimentos muito mais do que percebemos e gostamos de admitir, e utilizamos estes dois com muito mais frequencia do que nos damos conta, sempre misturados ao pensar... bem, nem sempre. Não percebemos o quanto estamos divididos, pensar de um lado, sentir do outro, ou quanto estamos unidos, mas na verdade sentimos e pensamos com a totalidade do que somos, achamos que somos "racionais" ou "sentimentais, sensíveis" ou algo assim, mas na realidade somos os dois, ou podemos ser os dois, usar razão e emoção. Num nível mais profundo, somos em grande parte governados pelo nosso Id, que é nossa parte inconsciente, mas não gostamos de saber disto, nos achamos donos completos de nós mesmos, sempre conscientes, seres superiores, racionais, o ápice da “criação”, o mundo e o universo ao nosso dispor.

E qual é o melhor? Pensar ou sentir?

O melhor é poder perceber que e o que pensamos e sentimos, poder unir os dois, ou usar mais um do que o outro, mas separar não é possível, melhor é ter extensão, amplitude emocional e psicológica, ou como diz uma amiga minha, "espaço interno".

Flexibilidade, isto sim é o melhor.