sábado, 18 de julho de 2009

Sociedade ansiosa

Quem usa Metro aqui em São Paulo deve ter notado, já há algum tempo, a presença de telas nos vagões. A alegação oficial era fornecer informações aos passageiros, como se não tivéssemos já o suficiente, mas o resultado na prática foi, nas poucas vezes que dei uma olhada, mostrar frases bonitinhas de pessoas como Albert Einsten ou Chico Xavier. Não sei quem faz a programação, mas deve ser alguem que nunca leu a biografia de nenhum dos dois, ou alguem que acha que física é coisa de outro mundo para misturar coisas tão díspares, antagônicas eu diria, num mesmo local.

Por que não citam também Feynman ou Dawkins, se querem citar cientistas? Por que teria que se ter muita coragem, e vivemos num pais de medrosos.

Mas o que desejo ressaltar aqui é a presença das telas, não do seu conteúdo, isto daria uma outra boa e longa postagem.

Dificilmente se vai à algum lugar sem que haja uma TV, um som ambiente ou música que brota de algum lugar invisível? Lojas de roupas tocam coisas incompreensíveis, “musica” saida, esta sim, de um outro mundo, talvez o intúito seja deixar-nos atordoados, fazendo-nos comprar tudo e rapidamente irmos embora, restaurantes nos brindam com uma variedade imensa de musicas, seja ao vivo, de qualidade quase sempre muito ruim, seja gravada, esta conseguindo ser ainda pior na maioria dos casos, somando-se ao ruido natural que no caso das churrascarias me faz temer que os convivas e os garçons possam surtar e sairem esfaquendo uns aos outros, confundindo-se e finalmente igualando-se aos outros animais já mortos sobre as mesas e nos espetos.

Os trólebus que circulam no corredor ABD tem musica, há um parque na provínciana São Bernardo do Campo cuja intenção é nos deixar em contato com plantas e natureza, que tambem faz brotar musica do meio da mísera área verde mostrada ali. Parque com som ambiente! Carros com vidros escuros passam com música no ultimo volume, se bem mais parecem sons destinados a enlouquecer e a ensurdecer quem estiver por perto. E ao longe também. Domingo oito horas da manhã passa o caminhão vendendo gás, que já passou a semana inteira, com uma musiquinha que se finge de inocente, finge que não incomoda, mas o faz. E depois passa o caminhão da concorrente. Os exemplos estão em toda parte. Vivemos no mundo dos exageros.

E o que há por trás disso?

Há uma sociedade extremamente ansiosa, feita obviamente de pessoas extremamente ansiosas.

Atrás desta ansiedade está a falta da capacidade de subjetivação.

O conceito de subjetividade é amplo, e embarca filosofia e sociologia, e subjetividade é o caráter do que é subjetivo, que, por sua vez, diz respeito ao sujeito definido como ser pensante, como consciência, por oposição a objetivo. De fato, a subjetividade engloba todas as peculiaridades imanentes à condição de ser sujeito, envolvendo as capacidades sensoriais, afetivas, imaginativas e racionais de uma determinada pessoa.

Algo que nos falta muito na sociedade de hoje. A capacidade de pensar antes de agir, a capacidade de pensar nossos sentimentos, e não apenas comprarmos e consumirmos para aplacar ou satisfazer algo que não sabemos nem queremos saber o que é.

A musica espalhada em todos os lugares, o ruido constante, o volume alto da TV, a programação de TV sem nexo nem significado profundo, redundante, que temporariamente finge tapar um vazio que se reafirma assim que este acaba, os jornais sensacionalistas, a comida abundante, cheia de sal e gordura, a bebida fácil na mão de adolescentes, a droga em todos os lados, tudo está sempre à mão para impedir que fiquemos com nós mesmos, que sintamos o que vai dentro de nós, que possamos nos entender, sentir, perceber, que nos transformemos em seres pensantes e com capacidade de sentir e entender o que se sente.

Nossa sociedade teme e evita o silêncio, e a introjeção, o mergulho em sí que este pode trazer, as transformações que pode provocar.

Só no silêncio se consegue reflexão, e só a reflexão pode trazer a mudança, a paz em todos os níveis.

Quanto tempo você consegue ficar em silêncio? Que sensações te desperta? O que te vem à mente?

Experimente e me conte.



RESENDE, Anita C. Azevedo ; “Subjetividade e cultura: a contribuição da psicanálise ao debate”, UFG/UCG, HYPERLINK "mailto:anita.resende@pesquisador.cnpq.br"anita.resende@pesquisador.cnpq.br

GT: Psicologia da Educação / n.20



Birman, Joel; Arquivos do mal estar e da resistência, Civilização Brasileira, 2006.


1 comentários:

  1. David, como gostei desse seu texto!
    Quero acrescentar que qualquer exercício verdadeiro de introspecção é necessariamente doloroso e acredito que as pessoas de forma intuitiva sabem disso. Para se propor a cultivar o silêncio é preciso ser forte. Em geral as pessoas tem pavor da introspecção pois acabam encontrando um buraco interno muito grande com o qual não sabem lidar.
    O excesso de músicas e sons alivia os fracos de espírito pois os afastam da possibilidade de pensar sobre si próprio e agride àqueles que são sensíveis à sua essência.
    Por isso ir a praia está cada vez mais difícil... Para que o barulho do mar se temos axé, não é mesmo?

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