Não faz muito tempo a grande mídia percebeu que falar sobre ecologia e meio ambiente, vende.
Percebendo isto tomou posse, digamos, de conceitos e idéias e as transformou em algo que pode ser empurrado ao público para dar uma aparência de que esta ou aquela companhia ou empresa está sinceramente preocupada com o mundo em que vivemos, incluindo ai seus “colaboradores” - jargão do mundo empresarial para falar sobre funcionários, empregados e similares, quer dizer, aqueles que são despedidos assim que alguma coisa ameaça os investidores, ou usados pelos sindicatos para extrair algum dinheiro de quem quer que seja – e seus clientes.
Basta olhar os jornais, revistas – alguem já contou o número de anúncios de montadoreas na Veja? - e estes estão recheados de palavras como “ecologico”, “natural”, “verde” “natureza”, “bio”, e muitas vezes decoradas com flores, folhas, animais e outros motivos. Os exemplos são muitos: Ecosport, um carro cujo nome poderia ser usado até num desodorante, Economat, marca de cambio automático de veiculos pesados, “agua mineral natural” - alguem já viu agua mineral artificial? - e outras pérolas de nossos criativos, sinceros absolutamente éticos publicitários, Duda Mendonça que o diga.
A publicidade que conhecemos hoje, incluindo ai a publicidade oficial das empresas, chamada de Relações Públicas, foi criada por Edward Bernays, por ironia do destino sobrinho de Sigmund Freud. Bernays utilizou-se das obras de Freud para poder manipular o inconsciente público, mais ou menos o que as igrejas já fazem há muito tempo, mas com o propósito de vender bens materiais e não salvação eterna ou favores divinos. Tudo isto brilhantemente explicado no documentário The century of the self, feito pela BBC e que pode ser visto no Youtube, mas em inglês e sem legendas, que eu saiba.
O que estes anúncios tem em comum alem da manipulação pura e simples é sua falta de conexão com a realidade do dia a dia. Qualquer empresa que publica um anúncio destes o faz como se não houvesse qualquer relação entre o que é mostrado e o dia a dia dos comuns dos mortais. A mesma atitude é passada pela perniciosa televisão, que trata do aquecimento global e o cuidado com o ambiente como se isto estivesse acontecendo em Marte e não aqui, no nosso dia a dia, e como se isto fosse sempre o problema e a responsabilidade de alguem que não eu, que estou aqui vendo esta novela tão boa, este BBB cheio de vulgaridade, este gordo que fala sem parar e nenhum, nenhum deles me deixa ou faz pensar em nada, a não ser compre isto ou aquilo.
A ficção científica sempre imaginou robôs ou máquinas complexas dominando o mundo; já há uma maquina que domina o mundo, está dentro da sua casa e ninguem notou.
Há vários mecanismos de defesa do ego que são usados para mediar o mundo exterior e o nosso mundo interior, este é um dos papéis do ego, e sem estes mecanismos não conseguiríamos viver.
O problema é quando estes mecanismos nos afastam da realidade e de um modo que nos atrapalha, incomoda, faz sofrer, e pode ir de uma negação à uma esquizofrenia, delirios e estados mentais perturbadores.
A midia, através dos métodos de Baneys se utiliza destes mecanismos.
Negação em atos e palavras, negação na fantasia, limitação do ego, todos mecanismos de defesa contra perigos extra psiquicos que podemos utilizar em nosso contato com a relidade, e estes são muito bem explorados por quem quer que deseje manipular um grupo.
No nosso caso, isto nos afasta da nossa real necessidade de fazer algo no dia a dia, em pequenos gestos, em atitudes que significam muito se colocadas numa perspectiva mais ampla, mas também teríamos de mexer com nosso egoismo, nosso narcisismo, do qual falarei oportunamente.
Quem estaria disposto a deixar o carro em casa, sempre que possível, e utiliza-lo apenas em último caso?
Ou tocar em outro de nossos hábitos mais sagrados e ferrenhamente defendidos, o consumo de carne? Ou ser corajoso a ponto de falar abertamente que nossa superpopulação é uma catástrofe esperando para acontecer, e que não haverá comida, abrigo, água e espaço para mais gente, portanto eu não vou ter filhos?
A relidade não se adequa aos sonhos e desejos humanos, e as vezes, descobrir isto pode ser tarde demais.

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